El Niño 2026/27: o que o agronegócio precisa saber sobre pressão de pragas na próxima safra

A safra 2026/27 começa sob um componente climático que merece atenção especial da pesquisa agrícola: a perspectiva de atuação do El Niño durante parte importante do ciclo produtivo brasileiro.

Segundo informações divulgadas pela Embrapa em julho de 2026, as previsões indicam probabilidade entre 97% e 99% de permanência do fenômeno até o início de 2027. Há ainda 63% de probabilidade de que o El Niño atinja intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Para o agronegócio, porém, acompanhar o El Niño não significa apenas observar previsões de chuva.

Mudanças no regime hídrico, na temperatura e na umidade interferem no desenvolvimento das culturas e também podem modificar as relações entre plantas, insetos-praga, patógenos e agentes de controle biológico.

É nesse ponto que o cenário climático passa a ser também uma questão fitossanitária.

O impacto não será igual em todas as regiões

Historicamente, os efeitos do El Niño apresentam grande variabilidade regional no Brasil. Na Região Sul, uma das principais preocupações está relacionada ao aumento da frequência e do volume de chuvas. Para a safra 2026/27, a própria Embrapa já recomenda intensificação do monitoramento fitossanitário, além de medidas relacionadas à drenagem, conservação do solo e planejamento das operações agrícolas.

No Brasil Central, a relação entre ENOS, distribuição das chuvas e janela de semeadura também exige atenção. Estudos recentes da Embrapa reforçam que compreender a variabilidade das precipitações dentro da estação de cultivo é importante para estabelecer calendários de semeadura mais adequados em sistemas de sequeiro.

Isso significa que não é tecnicamente adequado associar El Niño, isoladamente, ao aumento ou à redução de determinada praga em todo o território nacional.

A resposta depende da espécie, da cultura, da região, do momento de ocorrência, da temperatura, da disponibilidade hídrica e até das práticas de manejo adotadas.

Clima e pressão de pragas estão diretamente relacionados?

A temperatura exerce influência sobre diferentes aspectos da biologia dos insetos, como desenvolvimento, sobrevivência e reprodução. A umidade e a precipitação também podem modificar tanto as populações de pragas quanto a atuação de seus agentes naturais de controle.

Por isso, alterações climáticas ao longo de uma safra podem modificar a dinâmica populacional de espécies importantes para culturas como soja, milho e algodão.

Esse comportamento não ocorre de maneira linear.

Condições favoráveis a uma espécie podem ser desfavoráveis a outra. Períodos de elevada precipitação podem, por exemplo, favorecer determinados entomopatógenos, enquanto alterações de temperatura podem interferir no ciclo de desenvolvimento de insetos.

A própria pesquisa brasileira vem investigando essas interações. Trabalhos recentes da Embrapa Soja têm avaliado, por exemplo, o efeito de diferentes temperaturas sobre Spodoptera frugiperda e sua interação com agentes de controle microbiano.

Portanto, diante de uma safra influenciada pelo El Niño, mais importante do que antecipar quais pragas necessariamente aumentarão é ampliar a capacidade de detectar alterações populacionais à medida que elas acontecem.

O monitoramento ganha ainda mais importância

O Manejo Integrado de Pragas parte justamente do princípio de que decisões de controle devem considerar informações como densidade populacional, estádio de desenvolvimento da cultura, capacidade da planta de tolerar os danos e presença de agentes naturais de controle.

Em uma safra com maior variabilidade climática, esse acompanhamento se torna ainda mais estratégico.

Dados históricos continuam importantes, mas podem não representar integralmente as condições encontradas em uma determinada região durante o ciclo 2026/27.

Monitoramentos regionais, coletas de populações de campo e estudos de suscetibilidade podem ajudar pesquisadores e empresas a compreender se mudanças ambientais também estão sendo acompanhadas por alterações na ocorrência ou na resposta das populações de insetos.

Para programas de desenvolvimento de inseticidas, produtos biológicos e biotecnologias, esse cenário também reforça a importância de trabalhar com populações representativas das diferentes regiões agrícolas e condições de produção.

E o que isso significa para a pesquisa?

O El Niño 2026/27 reforça uma premissa importante: condições climáticas e fitossanitárias precisam ser analisadas de maneira integrada.

Para pesquisadores e empresas que trabalham no desenvolvimento e posicionamento de tecnologias, será importante acompanhar não apenas a ocorrência das pragas, mas também possíveis alterações em sua distribuição, desenvolvimento, pressão populacional e resposta às estratégias de controle.

Isso exige planejamento experimental, monitoramento contínuo, populações de campo bem caracterizadas e metodologias capazes de produzir dados comparáveis e confiáveis.

Na BioPartner, acompanhamos de perto a evolução das safras e os principais desafios fitossanitários da agricultura brasileira. Por meio de coletas em campo, criação e fornecimento de organismos-alvo e condução de ensaios laboratoriais e de campo, apoiamos pesquisadores e empresas na geração de dados que ajudam a compreender esses cenários e avaliar novas tecnologias.

Em uma safra marcada por maior incerteza climática, antecipar todas as respostas pode não ser possível.

Estar preparado para investigá-las é fundamental.

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