Falar sobre mulheres rurais no Brasil não é tratar apenas de representatividade. É falar sobre produção, gestão, segurança alimentar, conhecimento, renda e desenvolvimento rural.
Em 15 de outubro, o Dia Internacional das Mulheres Rurais chama atenção para uma participação que durante muito tempo permaneceu subdimensionada pelas estatísticas e pelo próprio reconhecimento social.
Os números ajudam a mostrar a dimensão dessa transformação.
Quase 1 milhão de estabelecimentos sob direção feminina
O Censo Agropecuário 2017, principal levantamento estrutural disponível sobre os estabelecimentos agropecuários brasileiros, registrou 946.075 mulheres responsáveis pela direção de propriedades rurais.
Elas representavam aproximadamente 19% dos produtores responsáveis pelos estabelecimentos pesquisados.
Uma década antes, no Censo Agropecuário de 2006, a participação feminina era de 12,7%.
A comparação mostra uma mudança relevante na presença das mulheres em posições formais de direção e tomada de decisão no campo.
Há, porém, outra informação importante.
O Censo de 2017 investigou pela primeira vez situações em que a direção dos trabalhos do estabelecimento era compartilhada pelo casal. Isso contribui para tornar estatisticamente mais visível uma realidade que nem sempre aparecia quando apenas uma pessoa era identificada como responsável pela propriedade.
Gestão é apenas uma dimensão dessa participação
Os números de estabelecimentos dirigidos por mulheres são importantes, mas não conseguem representar toda a contribuição feminina aos sistemas agroalimentares.
Mulheres participam da produção vegetal e animal, agroindustrialização, comercialização, gestão financeira, assistência técnica, pesquisa, extensão, cooperativismo e conservação dos recursos naturais.
Na agricultura familiar, sua participação também está diretamente ligada à produção de alimentos, manutenção da diversidade produtiva e geração de renda.
Por isso, discutir protagonismo feminino no agro exige olhar para toda a cadeia e não apenas para a titularidade formal da propriedade.
O desafio da visibilidade econômica
Uma das questões historicamente associadas ao trabalho feminino no meio rural é a diferença entre participar da atividade e ser reconhecida como agente econômica daquela produção.
Atividades relacionadas a hortas, pequenos animais, processamento de alimentos, sementes, comercialização e administração da propriedade muitas vezes foram interpretadas como extensão do trabalho doméstico.
Quando essas atividades passam a ser reconhecidas como trabalho produtivo, também se torna possível ampliar acesso a crédito, assistência técnica, mercados, capacitação e políticas públicas.
Mudanças recentes caminham nessa direção.
Políticas de compras públicas, por exemplo, passaram a incorporar mecanismos específicos para ampliar a participação econômica das agricultoras. Na aquisição de alimentos da agricultura familiar para o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a legislação passou a determinar que ao menos 50% do valor adquirido seja realizado em nome de mulheres agricultoras.
Mais do que uma meta numérica, medidas desse tipo contribuem para tornar visível quem produz, administra e comercializa.
Mulheres também estão na transformação tecnológica do campo
O protagonismo feminino rural também precisa ser analisado diante das transformações atuais da agricultura.
Digitalização, bioinsumos, mudanças climáticas, agricultura de precisão e novas demandas de sustentabilidade estão modificando competências e modelos de gestão.
Isso amplia a importância de garantir que mulheres tenham acesso às mesmas ferramentas de formação, conectividade, assistência técnica, crédito e inovação.
A discussão deixa, portanto, de ser apenas sobre participação.
Passa a ser também sobre condições para participar das decisões que definirão o futuro da produção agrícola.
Ciência também precisa enxergar essa diversidade
Para a pesquisa agropecuária, conhecer quem produz e como diferentes grupos participam dos sistemas produtivos também é relevante.
Tecnologias não são adotadas em ambientes abstratos. Elas chegam a propriedades administradas por pessoas com diferentes estruturas produtivas, níveis de acesso à informação, recursos e necessidades.
Quanto mais a pesquisa compreende essa diversidade, maior é sua capacidade de desenvolver soluções aplicáveis à realidade do campo.
Instituições de pesquisa, empresas, universidades e organizações de assistência técnica têm, portanto, papel importante na construção de ambientes em que conhecimento e tecnologia estejam acessíveis a diferentes perfis de produtores.
Números que representam uma transformação maior
O avanço de 12,7% para aproximadamente 19% de mulheres entre os produtores responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários, observado entre os Censos de 2006 e 2017, é significativo.
Mas também mostra que existe espaço para avançar.
O próximo Censo Agropecuário permitirá observar como essa realidade continuou se transformando. Até lá, os dados disponíveis já deixam uma mensagem importante: mulheres rurais não ocupam uma posição periférica na agricultura brasileira.
Elas produzem, administram, pesquisam, inovam e tomam decisões.
Neste Dia Internacional das Mulheres Rurais, a BioPartner reconhece quem contribui diariamente para construir uma agricultura mais produtiva, diversa e preparada para os desafios do futuro.
Dar visibilidade a esse protagonismo também significa reconhecer quem faz parte da ciência, da gestão e da transformação do agro brasileiro.



